Folhetim, uma composiテァテ」o de Chico Buarque interpretada por Tテ「nia Alves. Ilustraテァテ」o: Tami Martins.

Folhetim, uma composiテァテ」o de Chico Buarque interpretada por Tテ「nia Alves. (Ilustraテァテ」o: Tami Martins.)

Minha casa era cheia de tendテェncias na infテ「ncia. Mas nテ」o tテュnhamos adoraテァテ」o a nada. Nem religiテ」o, nem celebridades. Tudo era deixado a minha livre escolha. Os livros eram abundantes, mas discos haviam poucos.

Lembro bem de Tテ「nia Alves tocando, falando de amor, paixテ」o, promiscuidade, abandono, coisas que eu nテ」o entendia, mas que gostava de ouvir porque brincava com palavras tテ」o fortes e complicadas que sテウ poderiam ter vindo do fundo da alma, de um amor e de um desgosto tamanho. Parecia uma dessas melodias que chora, seduz e ao mesmo tempo odeia e rasga as roupas dos amantes.

E havia Mozart, em um cd velho, meio furado, que engatava em alguns momentos, nテ」o sei que histテウrias tinha vivido, ou como fora parar lテ。, mas me enchia de caminhos na mente. Achava absurdo a mテコsica sem palavras dizer tanto, eu entテ」o, pequena vivendo entre muros altos de minha casa que achava ser o mundo todo, nテ」o conhecia a mテコsica clテ。ssica, sua histテウria, suas vertentes. Eu sテウ conhecia os sons, gritos de moleques, o som da voz que canta pra gente dormir, que テゥ diferente da voz que briga quando a gente faz o que nテ」o deve. E esse cd furado era um pouco de tudo que eu quisesse lembrar atテゥ esquecer que ele tocava no rテ。dio azul velho que havia ali.

Meus pais gostavam de Zテゥ Ramalho, Legiテ」o Urbana, a mテコsica revolucionテ。ria do tempo deles, e sempre que ouvテュamos essas mテコsicas eu preferia aquelas que os intテゥrpretes falavam de amor do que aquelas que falavam de um mundo ruim, uma sociedade escrota, pois nテ」o entendia que mal podia haver em um mundo em que hテ。 テ。rvores pra subir, colos pra sentar, caracテウis nos buracos dos tijolos pra mexer.

Conforme fui crescendo percebia que os muros nテ」o delimitavam o mundo, que as pessoas nテ」o sテウ amavam, e que perdia aos poucos tanto a habilidade quanto o interesse de subir em テ。rvores.

Notei, depois テゥ claro, que toda a liberdade de escolha e a nenhuma idolatria me deixaram com a mente em branco para ser preenchida pelo que vivesse, e hoje em alguns momentos invejo aqueles que adoram tanto qualquer coisa, porque jamais vou entendテェ-los, seja Deus, um time, uma banda ou uma ideologia.

E a mテコsica tambテゥm preencheu despretensiosa minha infテ「ncia, sem dar direテァテオes bem definidas para meus gostos particulares. E apesar de parecer superficial, eu na verdade gostava de ouvir o que os outros ouviam, nem sempre me agradava, mas meus amigos mais queridos definiram o que eu ouvi por quase toda a minha vida. Atテゥ que aos poucos eu fui me tornando mais seletiva, meu ouvido mais apegado a certas melodias.

Eu passei pelo mais grotesco do que havia de popular me bombardeando, e posso dizer que nunca tive saco pra procurar a fundo algo melhor, fui ouvindo, ouvindo, atテゥ que a mテュdia dissesse o que era bom de novo.

Eu acho que a mテコsica sempre foi pra mim um conto curto, e eu apreciava ouvir as histテウrias que ela ocultava em suas metテ。foras independente do estilo.

E entテ」o me deram uma mテコsica. E quando se recebe um presente テゥ necessテ。rio abri-lo e agradecer. E eu agradeテァo. Atテゥ hoje ouテァo essa mテコsica e me recordo do meu primeiro amor, da minha juventude afoita, e ao mesmo tempo sossegada, que caminhava pelo bairro a noite de mテ」os dadas vendo desenhos em poテァas d’テ。gua deixadas pela chuva.

窶廾uvir窶 acho que テゥ o que define aquilo que eu gosto. Tudo que eu jテ。 escutei atテゥ agora levou mais que uma vez para se tornar agradテ。vel a meus ouvidos. Eu preciso sempre conhecer aquilo que me diz algo, que canta, que grita. Aos poucos as mテコsicas que foram se juntando nos meus arquivos e que no mais alto volume saiam de meus fones de ouvido foram se tornando um retrato do que vivi e quem conheci, quem amei, e as coisas que eu acredito creio que muitas vezes foram elas tambテゥm que souberam traduzir. Eu nunca gostei de ouvir o que eu nテ」o acreditava.

E por mais que nテ」o me considere culta, quando o assunto テゥ mテコsica, que nテ」o consiga decorar nem mesmo o nome da minha sinfonia favorita, ou nテ」o saiba o nome de integrante nenhum das bandas que gosto, eu sinto uma satisfaテァテ」o tamanha de saber exatamente o que quero ouvir pela manhテ」, e o que ouvir quando estou com raiva, e que mテコsica tocar quando quero lembrar de alguテゥm. A mテコsica se tornou parte da minha histテウria sendo ela milhares de outras vidas comprimidas em versos, notas, acordes e guturais. Eu nテ」o gostaria que tivesse sido de outra forma, a minha experiテェncia com a mテコsica.

Tami Martins

Diretora de Marketing da Ictus Produtora de Aテコdio

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